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13/03/2018 - 10h19

A Maldição da Casa Winchester

Filme recria estrutura e mitologia da casa assombrada

Winchester, assombração, armas. Se algum desavisado escuta estas palavras, pode achar que estamos falando da série "Supernatural" do canal Warner. Não, na verdade estes termos normalmente tratavam-se da história da Mansão Winchester, de onde deve ter vindo a referência para o nome dos irmãos heróis da série.

O palácio do terror
A Mansão Winchester é uma casa gigantesca, construída em San José, no Estado americano da Califórnia. A construção pertencia a Sarah Winchester, viúva do magnata William Winchester, empresário que inventou o famoso rifle homônimo ao seu sobrenome. A arma é conhecida até hoje por ter ajudado a desbravar o oeste selvagem. Para isto aniquilou tribos de índios, soldados da guerra civil, milhares de cowboys, xerifes e malfeitores.

Da tristeza constrói-se o medo
Ainda jovem, a viúva Sarah enfrentou uma forte depressão, após perder a filha Mary e o marido. Ao procurar um médium, para lhe apaziguar a tristeza, este explicou que as dificuldades dos winchester vinham das milhares de mortes que os rifles haviam causado. Conforme ele, os espíritos dos assassinados assombravam a família. Para resolver a situação o médium propôs que a viúva construí-se uma casa gigantesca, com um quarto para trancar cada espírito assassinado.

A Mansão Infinita
Obedecendo a orientação, a senhora construiu ininterruptamente, por 38 anos, a famosa mansão Winchester. Apenas com a morte da viúva, a construção encontrou seu fim. A edificação chegou a ter sete andares e 160 cômodos, incluindo 40 quartos, 2 salões, 47 lareiras, mais de 10.000 painéis de vidro, 17 chaminés, dois subsolos e três elevadores. Foi possível realizar esta obra faraônica graças a herança de mais de U$ 20,5 milhões que Sarah recebeu com a morte do marido. Também com a participação de cinquenta e um por cento na empresa de rifles, que lhe garantia uma receita diária de U$ 1.000, em média.

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Construindo um novo mistério
Como se esta história não fosse suficientemente estranha, Hollywood resolveu dar mais uma temperada neste conto. Os irmãos diretores, Michael e Peter Spierig (Jogos Mortais - Jigsaw, 2017), trouxeram para as telas o terror "A Maldição da Casa Winchester". O filme se apresenta como mais um suspense de final de semana, e traz várias curiosidades interessantes na construção de sua trama.

A decadência em cena
Em "A Maldição da Casa Winchester" somos apresentados a Eric Price (Jason Clark, O Exterminador do Futuro - Gênesis, 2015), um psiquiatra decadente, que se afundou com láudano e prostitutas, após o suicídio da esposa. Eric é contatado pela direção da Empresa Winchester para fazer uma avaliação da sua sócia majoritária, Sarah Winchester (Helen Mirren, Beleza Oculta, 2016). Conforme o representante da fábrica, a construção da casa está consumindo parcelas significativas dos recursos do negócio. Os acionistas necessitam de um laudo médico, que determine a insanidade da viúva, para tirá-la do comando das decisões do empreendimento.

Construindo a verdade
Relutante, o médico acaba convencido em realizar a empreitada. Ele atravessa o país para se hospedar na mansão por alguns dias, para fazer a avaliação de Sarah. Chegando lá descobre que foi a viúva que o escolheu como analista. Logo passa a ter de conviver com as excentricidades do local para realizar seu trabalho. Aos poucos vai descobrindo que talvez aquela senhora não esteja tão insana quanto se comenta. Realmente existem mistérios a ser desvendados na casa. Pior que isto, parece que uma força sobrenatural se esforça para prejudicar todos da família Winchester e seus convidados. Eric tenta então entender qual seu papel nisto tudo. Poderia ele ajudar a trazer paz a Mansão¿ São estes questionamentos que aos poucos vamos desvendando, neste filme cheio de sustos e segredos, elaborados em cima de uma base completamente real.

Dentro da casa
O que chama a atenção nesta obra é o cuidado da produção, ao apresentar a casa e respeitar as centenas de contos de terror sobre a Mansão. Boa parte de suas singularidades são apresentadas aos espectadores, que podem se sentir dentro da construção verdadeira. Elementos como comunicadores, através de tubos de ar, para passar informações à cômodos distantes; escadas que tem mais degraus e curvas do que necessitam; armários que se tornam portas; corredores que finalizam em um espaço vazio; tudo é muito bem mostrado na película. O sentimento do espectador é sempre claustrofóbico, por mais grandiosa que a obra pareça. Para isto o diretor mesclou cenas em estúdio, com tomadas realizadas na edificação original. Também existem belas externas, feitas através de gruas e drones, sobre o telhado infinito do palacete.

Reconstruindo Histórias
O filme também traz muito da vasta mitologia da casa Winchester. Contos de como a viúva projetava os desenhos para os novos cômodos, através de sessões mediúnicas, estão presentes aqui. Os fantasmas apresentados também são os mesmos descritos nas dezenas de documentários sobre a casa que existem na internet. Tratam-se de soldados da guerra da secessão, índios, escravos fugidos e bandoleiros. Todas estas assombrações foram assassinadas pelo rifle, criado pela família, exatamente como é descrito pelos pesquisadores das histórias da mansão real. Também é trazido, com exatidão, o esforço incansável dos operários em construir a mansão 24 horas por dia, montando e desmontando quartos, por ordem de Sarah. A preocupação com a realidade é tanta que o terremoto da Califórnia, de 1906, que fez desabar parte da construção real, é lembrado na fita, como sendo obra de um dos fantasmas.

Tremendo com a pouca fundação
No entanto, se no quesito transcrição da realidade o filme é muito bom, na arte de assustar é menos eficiente. A fita abusa do "jump scare", técnica que apresenta um fantasma de forma inesperada e se aumenta o volume da trilha sonora ao máximo. Isto para causar o "pulo de medo". A construção de uma ameaça principal demora. Quando vêm, já estamos acostumados com outros fantasmas, dos inúmeros quartos. Com isto o chefão perde a força. De qualquer forma é um filme ótimo para organizar uma franquia. Existem muitas dúvidas deixadas em aberto sobre os acontecimentos. Quem era o médium que instruiu Sara Winchester, por exemplo. Se fizer uma bilheteria razoável tenho certeza que a continuação deve se concretizar.

Sem Winchesters para ajudar
Se nos nega calafrios, "A Maldição da Casa Winchester" traz uma sensação bem realista de estar dentro da casa original. Confesso que fiquei bastante contemplado com este sentimento. Tenho certeza que o filme ajudará a impulsionar muito este ponto turístico americano. A vontade que fica é de conhecer o lugar, mesmo que ele não pareça ser mais interessante que alguns museus. Só espero que os milhares de fãs, que passarão a visitar o local, não encontrem nenhum problema com seus fantasmas, durante a estadia. Em nosso mundo, como no do filme, não existem os irmãos Winchester, da série Sobrenatural, para ajudar. Que o filme siga divertindo, mas que deixe suas assombrações, mesmo assustando pouco, dentro da tela de cinema.


Trailers
https://youtu.be/VtJC3h-xIJQ
https://youtu.be/KK8PmHB4lU4

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