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05/12/2017 - 09h55

Assassinato no Expresso do Oriente

Ótima readaptação de Agatha Christie traz de volta o mistério da morte no trem

Muito antes das histórias em quadrinhos, das séries de televisão e dos filmes de aventura o mundo já conhecia o conceito de franquias, apenas não o nominava. A interelação entre contos acontecia na literatura, principalmente nos livros de mistério, de investigação e de detetives. Seguramente a grande dama desta linguagem foi a "Rainha do Crime", Agatha Christie.

Locomotiva de sucessos
Segundo o "Guiness Book", Christie é a romancista mais bem sucedida da história da literatura popular mundial. Suas publicações, juntas, venderam cerca de quatro bilhões de cópias ao longo dos últimos séculos. Os números só ficam atrás das obras de William Shakespeare e da Bíblia. Seus livros foram adaptados em mais de quarenta filmes, produzidos por países como Estados Unidos, Inglaterra, França, Rússia e até a Índia, entre outros. Após quarenta anos de sua morte quem acha que lady Christie foi superada está enganado. Foi lançado recentemente mais uma versão de seu clássico, "Assassinato no Expresso do Oriente" (Murder on the Orient Express, EUA, 2017), dirigido e estrelado por Kenneth Branagh (Thor, 2011), que interpreta o protagonista da história, o detetive Hercule Poirot.

Linhas sempre paralelas
Poirot é um dos tantos personagens de Christie que fornece característica de franquia ao conjunto de sua obra. Ele resurge em várias publicações criando relação entre os diversos livros. O detetive parece sofrer de Tendência Obsessiva Compulsiva, a famosa síndrome de TOC. Hercule se utiliza da doença para desvendar seus casos, pois é obcecado por padrões. Quando percebe que algum deles está quebrado, sabe que ali está a provável solução para um crime. Embora esta técnica o torne o melhor detetive do mundo, também traz incômodos, como exigir ovos cozidos com exatamente o mesmo tamanho no café da manhã.

Saindo dos trilhos
Em Assassinato no Expresso do Oriente, Hercule se vê obrigado a embarcar na famosa linha de trem que seguia de Paris para Constantinopla. Quando o comboio atravessa grandes montanhas nevadas, na altura da Iugoslávia, sofre um brusco descarrilamento. O desastre acontece devido a uma avalanche que impede o avanço da locomotiva. Na parada, o detetive descobre que um dos passageiros foi assassinado. Como não existe possibilidade de ir adiante, até a chegada do socorro, Hercule é convocado pelo gerente do empresa férrea para resolver o caso. Sem uma explicação evidente para o homicídio, cabe ao belga (seguidamente confundido com francês) decretar que todos os passageiros são suspeitos e as investigações devem iniciar imediatamente para encontrar o assassino. 

O jogo já começou
Para quem gosta de jogos de tabuleiro como Detetive ou Scotland Yard o filme é um prato cheio. Na verdade estes brinquedos de dados devem muito a Agatha Christie na elaboração da lógica de como se deve resolver casos complicados, como do Expresso do Oriente. No filme são apresentados os suspeitos um a um, através da interrogação de Hercule. Cada personagem é mais diferente que o outro, como bem demonstra a campanha publicitária do longa. Temos o médico negro discriminado, a governanta refinada, o mordomo moribundo, a princesa rabugenta, a misteriosa missionária, a milionária promiscua, entre tantas outras figuras caricatas que se apresentam. O interessante do filme é que as acareações pouco ajudam a resolver o mistério. Isto acontece apenas graças ao conjunto dos depoimentos, bem como informações que passam despercebidas. Confesso que a resolução do crime parece bastante inverossímil para os filmes dos dias de hoje, mas que é divertido acompanhar a busca de Hercule, isto não tenho dúvida. 

Trem para as Estrelas
As personalidades dos suspeitos são reforçadas pela grande constelação de astros que os interpretam. Estão no filme estrelas como Michelle Pfeiffer (Batman - O Retorno, 1992), vivendo uma viúva promiscua de nome Sra. Hubbard; Judi Dench (007 - Operação Skyfall, 2012), como a princesa Dragomiroff; Penélope Cruz (Bandidas, 2006) como a missionária Greta Ohlsson; Willem Dafoe (Homem-Aranha, 2002), como o racista professor Gerhard Hardman; Daisy Ridley (Star Wars - O Despertar da Força, 2015), como a delicada governanta Mary Debenham. Estes são apenas alguns entre tantos potenciais criminosos que se apresentam. Vale somar a estas boas interpretações o já citado Kenneth Branagh, como Hercule Poirot, e um Johnny Depp (Piratas do Caribe - A Vingança de Salazar, 2017), bem diferente de seu eterno "Capitão Jack Sparrow". Nesta obra ele é o violento gangster Ratchett, que é ameaçado por cartas anônimas desde a primeira fase da história. Hercúleo, isto sim, deve ter sido conseguir reunir um elenco desta grandeza para concretizar o filme.

Atravessando paredes
Outro ponto em que o filme se destaca é na técnica de filmagem. O diretor opta por utilizar um cenário apertado, como se estivéssemos mesmo em um trem. Para demonstrar isto a câmera realiza ângulos impossíveis, como se filmasse do teto das cabines, do canto dos beliches e até atravessando as paredes dos vagões. Proezas que só a computação gráfica permite. Se não fosse possível perceber a montagem, o espectador ficaria por horas tentando imaginar como aquela grua ou drone conseguiu se enfiar naqueles lugares. A tecnologia possibilita também belas externas do trem, que nos viabiliza assistir o que cada passageiro está fazendo em sua janela. Na verdade o diretor tentou dar uma visão escondida ao espectador, consentindo que este visse o filme de situações que só ele consegue. Somos uma testemunha única e muda de todos os fato.

Parada no passado
Por falar em efeitos especiais, eles colaboram também na construção dos cenários, lindíssimos, mas claramente feitos em tela verde. A mesma técnica é utilizada para recompor a época do conto. A estação de trem é reconstituída com perfeição, exatamente como deve ter sido. A caracterização da época também é refeita no interior dos vagões, mostrando que uma viagem de três dias, como a do filme, era mais que um simples deslocamento. Tratava-se de verdadeiro cruzeiro em terra, para pessoas de grande poder. Destaca-se nestas passagens o figurino de época utilizado pelos personagens, perfeitos como os cenários.

A vida é trem bala
Independente de tudo isto, o que mais causa estranheza no filme, para nós, cidadãos contemporâneos, certamente é o valor que Agatha Christie dá para a vida. A vítima do homicídio é um criminoso, responsável por vários crimes. Mesmo assim o detetive se esforça em descobrir seu assassino até o final da fita, pois para ele a vida é preciosa, independente de quem seja. Se o conto fosse construído sobre a lógica atual, de filmes completamente violentos, certamente o corpo seria jogado pela janela do trem, sem dó nem piedade.

Voltando a bordo
Bom que devemos ver esta cordialidade novamente na continuação da película. O seu derivado está sendo preparada tendo como base outro clássico de Agatha, o famoso "Morte no NIlo". Os acontecimentos da obra são citados no fim da fita pelo detetive, quase como um easter egg, abrindo espaço para um novo mistério. Que Hercule Poirot retorne e traga para nova geração tempos mais civilizados. Que ele possa influenciar nossos jovens assim como a franquia do universo de Agatha Christie vem fazendo com a humanidade a quase cem anos.


Trailers
https://youtu.be/1LqXLJEq4sw
https://youtu.be/w3hokM1cosI

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