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12/09/2017 - 09h46

Atômica

Filme de Espionagem Girl Power nos traz o gosto dos anos 80

A segunda parte do século passado foi recheada com filmes de espiões. Era um reflexo da época, pois vivíamos em plena guerra fria entre os blocos capitalista e comunista. É deste período sucessos como a série 007 e Agente da U.N.C.L.E. Estes traziam sempre um super espião buscando informações confidenciais do outro lado da cortina de ferro. O tema era tão forte que até o mestre Alfred Hitchcock tirou uma lasquinha, produzindo o clássico "Cortina Rasgada", de 1966.

De volta a Guerra Fria

Felizmente a guerra fria acabou. O lado ruim disto é que aos poucos os filmes de espiões foram perdendo espaço para fitas de ficção científica, magia e super-heróis. Estas tornaram-se as preferidas do cinema de ação. No entanto, o novo filme "Atômica" revisita o gênero e traz uma história que permite fazer uma análise distanciada do que foram aqueles anos de divisão mundial. A obra conta com aliados, que nem sempre o são, e uma ameaça iminente a ser encontrada e desarticulada.

Certo e errado em espionagem

Atômica foi inspirado na Graphic Novel "The Coldest City", editada em 2012, por Antony Johnston e Sam Hart. O filme é dirigido por David Leitch (Deadpool 2, 2018) e traz Charlize Theron (Mad Max: Estrada da Fúria, 2015) no papel da espiã Lorraine Broughton. Na história ela é chamada para ser interrogada pela sua agência de espionagem, o MI6 inglês. Com marcas visíveis dos ferimentos de sua última missão, ela tem de explicar para os agentes britânicos e para CIA, o que deu certo e errado em sua passagem pela Alemanha, durante os dias da queda do muro de Berlim.

A lista perdida

O filme é trazido em forma de flashback da missão de Lorraine . A espiã conta aos agentes do MI6 e aos americanos da CIA o que aconteceu enquanto tentava buscar uma lista perdida para um espião russo da KGB. O documento continha um poder devastador para qualquer superpotência, pois nela estavam os nomes de todos os agentes duplos dos países envolvidos na guerra fria. Isto no período final do regime comunista da União Soviética.

Pulando o muro

Em Berlim, onde se desenvolve o filme, Lorraine descobre que o agente inglês portador das informações foi assassinado . A partir dai a espiã precisa utilizar seus recursos para buscar o microfilme onde está a lista. Faz isto viajando entre o lado oriental e ocidental da cidade, atravessando a fronteira de diversas maneiras. Nesta empreitada se envolve com outros espiões, a polícia, o mercado negro alemão e gangues que estão a seu serviço. Tudo isto em meio a efervescência política que gerou a queda do muro que dividia a cidade ao meio.

Além dos tiros e explosões

O filme é empolgante por vários aspectos. O primeiro deles certamente é a trilha sonora. O longa é quase um musical devido a grande quantidade de sucessos que acompanham o desenrolar da trama. Para cada fase da história a fita traz, como pano de fundo, uma ótima música dos anos oitenta. Entre elas podemos citar Sweet Dreams (Eurytmichs) Blue Monday (New Order), Major Tom (Peter Schilling) e 99 Luftbaloons (Nena).

Dançando com espiões

Quem viveu a MTV nos seu auge, ou dançou nas casas noturnas da virada do século, vai se lambuzar com a trilha. São várias canções conhecidas que fazem acessar no cérebro um período gostoso da vida dos quarentões. As pequenas mudanças que são feitas na roupagem das melodias também agradará aos que escutarem a trilha pela primeira vez. Sem sombra de dúvida, Atômica valeria só por isto, mas ainda tem outras coisas relevantes em sua montagem.

Quando a arma secreta é uma tábua

A ação certamente é outro destaque da película. A fita destoa bastante dos antigos filmes do 007, onde as lutas pareciam uma montagem perfeita. Nas várias brigas de Atômica somos apresentados a uma coreografia bruta. Nada de golpes marciais certeiros. Embora sejam utilizados, as vezes a espiã precisa pegar uma tábua ou vaso que está a mão para tentar nocautear o inimigo.

Quinze minutos de luta

Nestas cenas mostra-se o quanto brigas de rua são estafantes. Existe uma em especial que traz um plano sequência de mais de quinze minutos em que a atriz vai caindo andares enquanto enfrenta agentes contrários. Ela começa a luta linda e acaba suada, machucada e mal podendo caminhar, demonstrando a veracidade que tenta ser passada na ação. As perseguições de carro também são frenéticas, assim como os mergulhos em rios gelados são asfixiantes. É um filme que você perde o fôlego só de ver.

Para estudantes de história

Outro aspecto forte de Atômica é a contextualização histórica. Como já dissemos, o filme se passa durante a queda do muro de Berlim. A locação vai muito além dos costumes, carros e roupas de época. É muito legal rever aquele ambiente, do final dos anos oitenta, sendo recriado. O crescer das manifestações no bloco oriental, que geraram o fim da URSS, é extremamente bem feito. Torna-se interessante assistir a escalada dos acontecimentos com o devido distanciamento histórico, que possibilita uma melhor análise dos fatos. Acredito que aos estudantes de história seja adequado olhar, antes ou depois desta fita, o filme "A Ponte dos Espiões"(2015), de Steven Spielberg, que traz o momento da construção do muro de Berlim. É interessante comparar as situações que antecederam a construção do muro e as que causaram a sua derrocada.

Muito Além da Mulher Maravilha

O filme vale a pena também pela apresentação de uma heroína completamente "girl power", inserida no período de afirmação feminina em que vivemos. A agente não deixa em nada a desejar para os homens da fita, tanto na interpretação quanto nas fortes cenas de luta. E olha que Charlize disputa com monstros do cinema como James McAvoy (Fragmentado, 2016) e John Goodman (Rua Cloverfield 10, 2016). A fita também é ousada por apresentar um relacionamento homossexual entre a protagonista e a agente francesa Delphine, vivida por Sofia Boutella (A Múmia, 2017).

Difícil argumentar

No entanto, se o filme é povoado de impactos positivos para os espectadores, existe também um aspecto bastante decepcionante. A trama é muito enrolada. São tantos detalhes na perseguição a tal lista que em determinado momento simplesmente abandonamos o roteiro. Sem problemas por isto. É possível se divertir apenas ouvindo as músicas e prendendo a respiração nas entusiasmantes cenas de ação, que nos fazem esquecer por que aquilo está acontecendo.

Atômica, muito longe de uma bomba

No final das contas Atômica é um ótimo filme que abusa das nossas lembranças e nos leva a um passado recente pouco contado. Agora que os filmes de espiões já fazem parte do pretérito, espero que passem a ser tratados como épicos. Que todas reconstituições do período sejam tão bem elaboradas como em Atômica. Não precisamos mais ter a grande quantidade de agentes como tínhamos no século passado. Mas se tivermos a qualidade de Atômica, com suas musicas, ação, ambientação e principalmente, com a beleza de Charlize Theron, tenho certeza que a guerra fria estará completamente contemplada. O bom cinema agradece.


Trailers

https://youtu.be/SAbc-AyW0HA

https://youtu.be/Jc0_8kW8IGA

https://youtu.be/2ZSV3T7445I 

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