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12/06/2019 - 15h10

Ricardo Silvestrin

Ricardo Silvestrin nasceu em Porto Alegre, em 1963. É formado em Letras pela UFRGS e publicou oito livros de poesia: "Metal", "Advogado do diabo", "O menos vendido", "Ex, peri, mental", "Palavra mágica", "Quase eu", "Bashô um santo em mim" e "Viagem dos olhos". Na prosa, destaque para "Play" (contos) e "O videogame do rei" (romance). Foi agraciado cinco vezes com o Prêmio Açorianos de Literatura, principal honraria da literatura rio-grandense. Também é músico. Integra a banda Os poETs. Sua escrita se caracteriza pelo tom despojado, crítico, versátil e de uma inteligente sui generis que reverbera aforismos e sofisticação. Pungente e invulgar. “Só a mentira absoluta tem ainda a liberdade para dizer de qualquer modo a verdade. (…) As mentiras têm pernas compridas: adiantam-se ao tempo”. Silvestrin é um dos melhores literatos em ação no cenário da poesia contemporânea. Ardil com as palavras e nas acepções. Singular.

Por: Tiago Vargas




No golpe de dezesseis,
não havia generais
como houve da outra vez.
Era guerra fantasiada de paz,
jagunços com togas,
congressistas fascistas,
democratas ditatoriais,
jornalistas ficcionistas,
todos, sem exceção,
no estado de exceção
recitando, em jogral,
a redação do juízo final
ou o samba desenredo
de um tétrico carnaval.
Ricardo Silvestrin







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O PRIMEIRO DA TURMA

Ele era meio estranho
Camisa abotoado até o pescoço
Cabelo com gumex
Calça com cinto
Sapatos lustrados
... Era o primeiro da turma...
Não namorava
Não bebia
Não fumava
Dormia cedo
Ele era um cara legal
Obediente
Estudava até nos fins de semana
Lia Dostoiévski
... Se formou rapidinho...
Sempre com as melhores notas
Foi para o estrangeiro
Trabalhou aprendeu
Viveu
E passou anos...
Um dia ele voltou
Cabelos compridos
Barbudo
Vestia Jeans desbotado
Corpo tatuado
Brincos de pirata
Fumava bebia
LSD já tinha tomado
Até arriscava uma guitarra
Agora usava sandálias de couro
Bolsa tiracolo
Falava de teatro
De política
Ele era um cara legal
E continuava sendo o primeiro da turma...

Jorge Ritter

 

DESPERTAR

Cercamo-nos daqueles
Com discernimento
Pois deles é esperado
Nada menos que o céu.

Cercamo-nos daqueles
Que ainda creem
Na honestidade
Pois estes herdarão
A virtude nesta terra.

Cercamo-nos dos visionários
Dos loucos, pois estes
Têm a visão além
Da amplitude do infinito.

Cercamo-nos daqueles
Que não tem medo de errar
E preservam em seus ideais
Mesmo conhecendo o alto
Preço de mudar velhos conceitos.

Cercamo-nos daqueles
Que ainda acreditam
Na paz da plenitude
Pois um dia
A estes o mundo ouvirá.

FÉLIX KORBERG

 

Do corvo que não tem Poe
Ao albatroz de asa cegada
Iluminai nosso assum preto
Cego do zóio e de Gonzaga.
Dilso j. Dos Santos

 

O Deus automóvel

Minha cidade têm Automóveis
Os Automóveis têm a cidade
Os Automóveis têm as casas
Minha casa têm Automóveis
Meu Carro tem a mim e
A minha vida
Meus nervos
Os Automóveis têm as ruas
As ruas são Deles, Automóveis
Os Automóveis têm os corações
Em meu coração há um Automóvel
Meu corpo têm Automóveis
Os Automóveis levam os corpos
Todos os dias têm corpos
Os Automóveis são o sopro
A glória de Deus
Do Homem remediado
Que pertence, pertencemos
A Eles
Eles possuem a vida
Eles são nós
Somos Deles.

Bagual Silvestris

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