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13/02/2019 - 10h13

Adelaide Ivánova

Adelaide Ivánova nasceu em 1982 em Recife, Pernambuco. Jornalista, tradutora, fotógrafa e poeta. Publicou Autonomia, Polaróides e O martelo, sua obra mais destacada. Seus escritos denotam um caráter urgente e retratam com desenvoltura uma invulgar coragem de abrir a caixa-preta dos temas não-ditos do universo feminino, entre os quais temas como a violência de gênero, da relação abusiva ao estupro. Sua fotografia suscita grafias que se alinham num percurso textual de inquietação e desconforto. Suas palavras são impulsivas e contundentes. Incontroláveis. Poesia critica e autoreferencial que desbrava sentido e remonta significados.. Concisa. Densa. Poemas em ebulição. Poesia para sangrar.

Por: Tiago Vargas

 

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a sentença
I

pesa o decreto atroz, o fim certeiro.
pesa a sentença igual do juiz iníquo.
pesa como bigorna em minhas costas:
um homem foi hoje absolvido.
se a justiça é cega, só o xampu é neutro:
quão pouca diferença na inocência
do homem e das hienas. deixem-me em paz!
antes encham-me de vinho
a taça, qu’inda que bem ruim me deixe
ébria, console-me a alcoólica amnésia
e olvide o que de fato é tal sentença:
a mulher é a culpada...

Adelaide Ivánova



os anos noventa

você não estava lá nas coisas mais decisivas da minha vida
mas é assim mesmo: historiadores e arqueólogos
nunca estiveram presentes pra testemunhar
os levantes coletivos isso fazem os jornalistas e os
videntes você era apenas um menino quando
kurt cobain morreu nem poderia ainda saber o dano
que causaria sua existência de crisálida taurino e
primaveril quando meu destino cruzasse com o seu
e andaríamos de mãos dadas e suando verão afora
como se fosse o primeiro (e era) berlim não era
tão esplendorosa quantos seu cachos jakob mas você
nunca soube o que foi ter 16 anos em recife na década
de noventa FHC presidente desemprego torneiras secas
filariose cólera sem vale do rio doce mas tinha chico science
abril pro rock o pior é agora não tem berlim não tem recife
não tem chico science não tem kurt cobain nem você mas FHC
ainda tem



 

NUNCA PRESTEI ATENÇÃO NA VIDA QUE ME SEGUIA

Antigamente andava por aí
Ao Deus-dará
Subia no telhado
Ouvia vozes
Observava as pessoas que passavam
Não tinha compromissos...
Só pensamentos
Brincava na rua... não tinha medo da noite
Cabelo comprido
Calça jeans desbotada
Camisa xadrez
Tênis tingido
Cigarro na boca
E um livro proibido nas mãos
Todos os personagens eram meus velhos companheiros
Secretas almas me seguiam...
Até um gole de vinho nos caia bem
Nunca tive respostas para minhas perguntas
Não tive paciência para desvendar mistérios
Não prestei atenção no dia que não chegou
E veio a chuva
Molhou minha rua
Levando toda terra que marcavam minhas trilhas
Apagando meus rastros
Até meu endereço levou
E agora sozinho não consigo voltar...

Jorge Ritter

 

Cenário

Daqui de cima vêem os bananais
O céu azul, a cidade, as casas e os quintais.
Botijões sob o tanque, pereiras carregadas, cravos e rosais.
Daqui de cima vê-se,o vôo de andorinhas, o rumo da saudade,
a estrela vespertina.
Sentem-se cheiros denso de feiras e vendavais.
Nas tardes mornas, a vida nas roupas voadoras dos varais.

Cecília Kemel

 

A chegada do amor
O amor chega e invade
Calmamente não faz alarde
Vem no sorriso tímido e acanhado
Ou no deboche atraente e ousado
Mas o amor vem mesmo assim
Vem para se refletir
Vem para parar de pensar
Chega pra falar a verdade
Ou vai para parar de mentir
Mas o amor vem para se amar
Amar o inteiro sem dividir
Quem sabe amanhã ele embora vá
Quem sabe ele fique pra nunca mais ir.
Cristina Gomes

 

Penso na poesia
Como refeição
Que alimenta
Mata a sede
Poesia suculenta
Que nos tenta curar
Como remédio
Contra a dor
O tédio
Palavra viva
Sinta o verso
Engula
Sem bula
Sem contra indicação
Poesia é abraço
Fato real
Ato de resistência
Na cura da dor de alma
Corpo físico no espaço
Na poesia me acho mesmo que vagando sem rumo
Poesia viva
Eu a deriva sempre seguro tua mão.

Fátima Farias 

 

Não há azul
apenas um voo cinza no céu
atormentado voa
sem saber da tempestade que se aproxima.

César Roos


Foto: César Roos 

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