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22/08/2018 - 08h31

A poesia do Instante: Angélica de Freitas

Angélica de Freitas é uma das mais destacadas vozes da poesia brasileira contemporâneo. Nascida em Pelotas, em 1973 é, por formação Jornalista e tradutora. Publicou dois volumes do gênero, Rilke Shake (2007) e O útero é do tamanho de um punho (2012); este vencedor do Prêmio de melhor livro de poesia em 2012 concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Escreveu também o romance Guadalupe: Uma Roadtrip fantástica. Escritora sagaz. Inteligente sem ser prepotente. De linguagem crua, simples. Humor e intertextualidade numa síntese perfeita. "São tomates e cebolas que nos sustentam, ervilhas e cenouras... Ah! Shakespeare é muito bom! Mas e beterrabas, chicória e agrião? Um modo não convencional de composição, inerente, sem a submissão do politicamente correto. Angélica de Freitas afasta-se com premência dos clichês óbvios e dos trocadilhos duvidosos. Suas temáticas se pautam na insignificância e aleteoridade do cotidiano, naquilo que é recorrente, vezeiro e usual. (consegue criar em sua escrita imagens a partir de elementos simples). Versátil, perceptiva e invulgar. A poesia do instante. Do olhar fotográfico.

Por: Tiago Vargas

 


DENTADURA perfeita, ouve-me bem:
não chegarás a lugar algum.
são tomates e cebolas que nos sustentam,
e ervilhas e cenouras, dentadura perfeita.
ah, sim, shakespeare é muito bom,
mas e beterrabas, chicória e agrião?
e arroz, couve e feijão?
dentinhos lindos, o boi que comes
ontem pastava no campo. e te queixaste
que a carne estava dura demais.
dura demais é a vida, dentadura perfeita.
mas come, come tudo que puderes,
e esquece este papo,
e me enfia os talheres.


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Meu propósito é morrer nalgum boteco,
Para que eu tenha vinho perto da boca.
Assim os anjos cantarão bem bonachos:
"Que Deus tenha piedade desse bêbado."

 



mi
eu penso em béla bártok
eu penso em rita lee
eu penso no stradivarius
e nos vários empregos
que tive
pra chegar aqui
e agora a turbina falha
e agora a cabine se parte em duas
e agora as tralhas todas caem dos compartimentos
e eu despenco junto
lindo e pálido minha cabeleira negra
meu violino contra o peito
o sujeito ali da frente reza
eu só penso


mi
eu penso em stravinski
e nas barbas do klaus kinski
e no nariz do karabtchevsky
e num poema do joseph brodsky
que uma vez eu li
senhoras intactas, afrouxem os cintos
que o chão é lindo & já vem vindo
one
two
three


Poemas
ANGÉLICA FREITAS

 

 POEMAS POESIAS VERSOS


Amo Dali e Picasso
Nas artes visuais
Amo Quintana e Neruda
Nos poemas de amor
Amo The Beatles e Elvis
Nas músicas estrangeiras
Amo italiano e francês
Nas línguas do latim
Amo lua cheia e pó de estrelas
Amo temporais e maresia...
Amo esta minha estranha
Mania de amar....

Mara Garin

 

Sinaleira
Monóxido de carbono
Óbice
E óbito
No vértice da cidade.
Na esquina
Vertigem e dor
Na quina
A hora zero
Do vendedor
De bergamotas.

Célia Maria Maciel

 

Validade

A tarde
se despede da luz
morre nascendo noite
espalhando crepúsculo
luares e estrelas.

Morre vivendo.

Zaira Cantarelli

 

Poesia ao cair da tarde
Meus sonhos enfurnam
As brancas velas
De um veleiro
À deriva das águas.
A que mar vamos chegar
Quem estará a me esperar
No fim da tarde
De um porto vazio
Para o amor celebrar?

Liane Korberg

 

Ponteiros do Relógio
Nunca acabamos de fato, sempre ficam alguns sonhos pelo caminho pulsando em alguém (e essa pessoa costuma ser muito especial). Um dia a velhice caduca e esquece uma e que outra coisa da infância, mas a essência, essa não muda, apenas pode azedar um pouco com o tempo. É como perfume. A diferença é que se exagerar na dosagem, alguns acabam torcendo o nariz para você.
Dizem que quando se está prestes a morrer, passa um filme diante de seus olhos. Sem aviso prévio, ao mesmo tempo em que está chegando as bilheterias, já sai de cartaz. E ao nascer? Será que tão cedo sabemos o que o futuro irá nos preparar? Ás vezes o passado é mais incerto que qualquer passo a ser dado. E, de tanto caminhar percebemos que é no meio do tempo, entre o que já foi e o que está por vir que construímos os ponteiros do relógio. Finalmente, à medida que acabarmos de assistir ao curta metragem da nossa vida, então as melhores cenas é o vamos deixar no meio.

Julia Effel

 

Em algum lugar do mundo
algo nos inspira a ser o que somos;
sentido, de fato
nunca foi encontrado.

André Luiz Carreira


o porquê das pequenas coisas

coisa miúda
é ponto de partida
é faísca
é fio de vida
das miudezas da sinapse
do fonema, da letra
nascem as ideias
as línguas, os livros
a grandeza do mundo
está na miudeza
de cada segundo

Marion Cruz

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