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05/04/2019 - 10h05

Depósito de gente

A jornalista Daniela Arbex trabalha há mais de 20 anos como repórter especial do jornal Tribuna de Minas. Suas investigações resultaram em mais de 20 prêmios nacionais e internacionais, entre eles três Essos, e seu mais recente trabalho foi “Todo dia a mesma noite”, em 2018, contando a história da boate Kiss, de Santa Maria.

A Editora Intrínseca acaba de lançar mais uma edição de “Holocausto brasileiro” (288 páginas, R$ 49,90), livro de estréia de Daniela, com o qual, juntamente com “Cova 312”, ganhou, respectivamente, o segundo e o primeiro lugares do Prêmio Jabuti, na categoria livro-reportagem. “Holocausto brasileiro” foi adaptado como documentário e lançado pela HBO em 40 países.

O livro conta a história do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, em Minas Gerais, fundado em 1903, conhecido apenas por Colônia, que recebeu por décadas centenas de pessoas diariamente para uma viagem sem volta. Os pacientes, muitas vezes sem diagnóstico de doença mental, eram submetidos a condições desumanas com o consentimento do Estado, de médicos, funcionários e sociedade.

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Ao longo de décadas, o manicômio se tornou um depósito de homens, mulheres e até de crianças, que haviam se tornado indesejáveis para o convívio social. Homossexuais, prostitutas, mães solteiras, meninas violentadas pelos patrões, mendigos ou moças que tinham perdido a virgindade antes do casamento, todos quando chegavam ao Colônia, a maioria à força, tinham as cabeças raspadas e as roupas arrancadas. Tratava-se apenas do começo: no dia a dia recebiam toda ordem de maus-tratos. Mesmo nas madrugadas frias da Serra da Mantiqueira, ficavam ao relento e perambulavam nus pelos pátios. Comiam ratos, bebiam esgoto, urina, dormiam sobre o feno, além de sofrerem torturantes sessões de eletrochoque.

Em 1979, o psiquiatra italiano Franco Basaglia, pioneiro na luta pelo fim dos manicômios e defensor do tratamento humanizado, conheceu o Colônia e declarou nunca ter visto uma tragédia como aquela. Num árduo esforço de apuração, Daniela Arbex localizou sobreviventes e entrevistou ex-funcionários para resgatar de maneira detalhada e emocionante as histórias de quem viveu de perto o horror perpetrado por uma instituição brasileira, que tinha o propósito de limpeza social comparável ao nazismo.

“Holocausto brasileiro” já vendeu mais de 300 mil exemplares no Brasil e Portugal e se tornou um marco do jornalismo investigativo no país.

 

Trecho:

“Os homens vestiam uniformes esfarrapados, tinham as cabeças raspadas e pés descalços. Muitos, porém, estavam nus. Luiz Alfredo viu um deles se agachar e beber água do esgoto que jorrava sobre o pátio e inundava o chão do pavilhão feminino. Nas banheiras coletivas havia fezes e urina no lugar de água. Ainda no pátio, ele presenciou o momento em que carnes eram cortadas no chão. O cheiro era detestável, assim como o ambiente, pois os urubus espreitavam a todo instante. Dentro da cozinha, a ração do dia era feita em caldeirões industriais. Antes de entrar nos pavilhões, o fotógrafo avistou um cômodo fechado apenas com um pedaço de arame. Entrou com facilidade no lugar usado como necretório. Deparou-se com três cadáveres em avançado estado de putrefação e dezenas de caixões feitos de madeira barata. Ao lado, uma carrocinha com uma cruz vermelha pintada chamou sua atenção.”

(página 177)

 

COMEÇANDO POR NARIZINHO

A Editora Companhia das Letrinhas está lançando uma série de livros do Sítio do Picapau Amarelo, de Monteiro Lobato, e “Reinações de Narizinho” (248 páginas, R$ 64,90) está abrindo os trabalhos. A edição de luxo é organizada por Marisa Lajolo e vem acompanhada por texto introdutório e debates sobre questões polêmicas relacionados à obra de Monteiro Lobato.

 

DIDATURA MILITAR

Entre tantas manifestações contrárias ao presidente Jair Bolsonaro, que sugeriu que os quartéis celebrassem a data de 31 de março, uma das mais marcantes foi a do artigo escrito no último final de semana pelo mega escritor brasileiro, Paulo Coelho. Ele contou no artigo, escrito para o The Washington Post, a tortura que sofreu durante a ditadura militar. Na esteira do assunto, foram notícia também o desconto que a Editora Boitempo está dando sobre suas obras que abordam o golpe militar para formentar as vendas.

 

Leituras:

“Na missão do advogado também se desenvolve uma espécie de magistratura. As duas se entrelaçam, diversas nas funções, mas idênticas no objeto e na resultante: a justiça. Com o advogado, justiça militante. Justiça imperante, no magistrado.”
Legalidade e liberdade são as tábuas da vocação do
advogado. Nelas se encerra, para ele, a síntese de todos os mandamentos.”

(Rui Barbosa, em “Oração aos Moços”, página 120, lançado em 1921, contendo o discurso feito como paraninfo da turma de 1920 da Faculdade de Direito de São Paulo).

 

Rodapé:

O gaúcho Luiz Antônio de Assis Brasil, um dos mais importantes escritores brasileiros da atualidade, acaba de lançar “Escrever ficção“ (Companhia das Letras, 400 páginas, R$ 79,90), uma espécie de manual para quem deseja escrever livros de ficção, fruto de sua experiência ao longo de 34 anos na Oficina de Criação Literária que ele próprio criou. Assis Brasil escreveu 20 livros e com sua oficina alavancou a carreira de alguns dos maiores autores brasileiros da atualidade.

 

Destaques:

PROCURA-SE UM AMOR

Autora: Adriana Falcão

Livro de crônicas que falam sobre coisas da vida, marcas do tempo e, sobretudo, sobre o amor. Nascida no Rio de Janeiro em 1960, Adriana Falcão passou boa parte de sua vida em Recife, onde se formou em arquitetura mas nunca exerceu a profissão. Escritora premiada de crianças, jovens e adultos, criadora de roteiros para a televisão (“A comédia da vida privada”, “A grande família”, “Louco por elas”), escreveu “Luna Clara & Apolo Onze”, “A comédia dos anjos”, “A máquina” e “O doido da garrafa”, entre outros.

Editora Salamandra. 95 páginas. R$ 21,90.


DESEJOS DO DESTINO

Autora: Jay Crownover

Uma história sobre partidas e reencontros, um romance carregado de drama e cenas tórridas, dentro da série “Homens marcados,” que fez da autora best-seller. Assim como seus personagens, Jay Crownover adora tattoos e música rock. Morando no Colorado, Estados Unidos, ela escreve histórias sobre amores e desejos.

Editora V & R. 320 páginas. R$ 35,90.   


(Com a colaboração de Viveiro Cultural)

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