Grupo Vieira da Cunha

Trovoadas esparsas

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Edição Impressa
12/01/2018 - 09h41

Entre a paixão e o dever

 Prêmio Nobel de Literatura de 2017, Kazuo Ishiguro, autor dos famosos “O gigante enterrado” e “Não me abandone jamais”, escreveu em 1989 uma de suas obras mais marcantes, “Os vestígios do dia”, que foi vencedor do prêmio Booker Prize naquele ano e foi adaptado magistralmente para o cinema com os atores Anthony Hopkins e Emma Thompson.

Ishiguro lida de forma talentosa com sentimentos polarizados, como o pessoal e o histórico, o público e o privado e a paixão e o dever, criando ligações pungentes e únicas. Em “Os vestígios do dia”, a figura central é um mordomo, envolvido em códigos e rituais da vida em sociedade, que sai em busca de sentimentos do passado.

A história acontece no verão de 1956. Depois de três décadas de serviço numa das mais distintas mansões inglesas, o mordomo Stevens, já próximo da velhice, tira uma semana de férias, e viaja para o Oeste do país. Vai ao encontro de uma antiga companheira de trabalho, que terminou há algum tempo um casamento infeliz. Durante a viagem, medita sobre a natureza da profissão de mordomo e mergulha em lembranças, emergindo o afeto silencioso pela mulher do seu passado e pelo próprio pai.

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Kazuo Ishiguro nasceu em Nagasaki, no Japão, em 1954, e mudou-se para a Inglaterra aos cinco anos. É autor de oito livros traduzidos em mais de quarenta países. Na sua adolescência sonhava ser um músico, atuando em vários clubes e enviando gravações a várias gravadoras. Sendo rejeitado por estas, e não tendo futuro com a música, decide dedicar-se à escrita. Estudou nas universidades de Kent e East Anglia, no curso de "escrita criativa" do escritor Malcolm Bradbury.

Ishiguro define-se como sendo “um escritor que deseja escrever novelas internacionais.” Segundo a Academia Sueca, responsável pelo Nobel, Ishiguro recebeu o prêmio porque “em seus romances de grande força emocional revelou o abismo sob nossa sensação ilusória de conexão com o mundo”.


Trecho:

“Como estava dizendo, ontem à tarde fui obrigado a passar longos minutos incômodos parado na sala de estar, enquanto Mr. Farraday fazia a sua brincadeira. Reagi como sempre, com um ligeiro sorriso, o suficiente para indicar que eu estava participando em alguma medida do bom humor que ele manifestava, e esperei para ver se meu patrão iria me dar a permissão para a viagem que eu estava esperando. Conforme previa, ele me concedeu sua gentil permissão depois de certo tempo, e, além do mais, Mr. Farraday teve a gentileza de lembrar e reiterar a generosa oferta de “bancar a conta da gasolina.”
Portanto, parece não haver razão para eu não realizar
minha viagem de carro pela região Oeste. Evidentemente, tenho de escrever a Miss Kenton contando que talvez passe por lá. É preciso ver também a questão das roupas. Várias outras providências referentes aos arranjos aqui da casa durante minha ausência terão de ser tomadas. Mas, no final das contas, não vejo nenhuma razão genuína para não fazer minha viagem.”

(página 29)

 

UMA PRECIOSIDADE

Um testemunho precioso a respeito da loucura nazista é feito pelo escritor Friedrich Reck-Malleczewen em “Diário de um desesperado” (Editora Sesi-SP, 328 páginas, R$ 54,90), escrito entre maio de 1936 e outubro de 1944. Neste período, Friedrich escreveu um diário, interrompido quando foi preso e enviado para o campo de Dachau, onde morreu. Crítico voraz do nazismo, ele conta como era viver na Alemanha de Hitler através de depoimentos comoventes e humanos.

 

MEDO E OPRESSÃO

Outro livro sobre o nazismo que vai dar o que falar é “Memórias de um adolescente brasileiro na Alemanha nazista”(Editora Melhoramentos, 152 páginas, R$ 50,00), escrito por Elisabeth Loibl. A história é da família Loibl, que deixou a Alemanha após a Primeira Guerra Mundial e veio para o Brasil. Depois de alguns anos, os Loibls resolveram retornar ao seu país em 1938, encantados com as promessas do partido de Hitler, que chegara ao poder. Rudolf, o filho nascido no Brasil, sofria agressões na escola, por ser considerado inimigo do Estado. A família muda-se para Varsóvia e apenas Rudolf sobreviveu, testemunhando a tragédia da guerra.

 

FILINTO MÜLLER

Um dos maiores especialistas em história do Brasil é o historiador americano R. S. Rose, que morou mais de 20 anos em nosso país. É dele um dos mais impressionantes relatos sobre Filinto Müller, o militar que foi figura de destaque em determinado período de nossa história. “O homem mais perigoso do país” (Civilização Brasileira/Record, 406 páginas, R$ 64,90) conta a vida deste homem que serviu a quatro diferentes ditadores, mandando torturar e matar suspeitos e adversários. Com base em mais de 66 mil documentos, 500 recortes de jornais e material impresso, além de 165 itens audiovisuais, o livro conta a história de Filinto desde seu nascimento em uma família de origem alemã, passando pela educação católica, até sua morte em 1973, em um acidente aéreo.

 

ALERGIA AO TOQUE HUMANO

Jubilee é uma garota que tem uma doença rara: é alérgica ao toque de outras pessoas, o que dificulta o seu convívio social. Até que um dia no colégio, é beijada por um garoto e quase morre. Além de ter ficado hospitalizada, ainda precisa lidar com o fato de que tudo não passou de uma aposta entre os garotos. Humilhada, ela decide ficar em casa. Até que, com a morte de sua mãe, começa a trabalhar na biblioteca da cidade e lá apaixona-se por Eric. Surgem daí diversas situações que precisa superar. A história é do livro “Perto o bastante para tocar” (Bertrand/Record, 350 páginas, R$ 39,90), segunda obra da autora Colleen Oakley.

 

Leituras:

“Por isso que os pais devem ter uma participação muito
importante na prevenção, começar no acompanhamento do filho na escola, não basta assinar o boletim, tem que ter uma participação efetiva na escola e também terminar com o tabu da vergonha e deixar vir à tona o adolescente que tem dentro de nós e conviver com os filhos com mais tempo. Fazendo isso, teremos um futuro melhor, caso contrário, haverá uma multidão de dependentes químicos incapazes de levar uma vida normal.”

(Evaldo Luiz Ribeiro Kilpp, em “Além das Nuvens,” página 65, lançado em 1998).

 

Rodapé:

O livro “Fogo e Fúria,” de Michael Wolff, que está abalando o governo americano de Donald Trump, já se encontra em pré-venda e deve ser lançado até março no Brasil, com os direitos adquiridos pela Editora Objetiva, do Grupo Companhia das Letras. O volume é um relato sobre as eleições presidenciais de 2016 e os bastidores do governo americano. Nos Estados Unidos, o livro já está esgotado em várias livrarias.

 

Destaques:

MEU LIVRO. EU QUE ESCREVI

Autor: Raony Phillips

Este livro é o resultado da websérie de sucesso, “Girls in the House,” da RaoTV, canal do YouTube com mais de 100 milhões de visualizações. Duny é a personagem central do canal e acabou ganhando uma série própria. Com seu linguajar inconfundível, ela adora um barraco e é a rainha do humor anárquico. Raony Phillips é o criador da personagem Duny, tem 24 anos, estudou marketing e desde cedo escreve e ilustra quadrinhos. É o seu primeiro livro.

Editora Intrínseca. 160 páginas. R$ 29,90.


A MEGERA DOMADA

Autor: Walcyr Carrasco

O livro é uma adaptação da famosa novela de William Shakespeare, considerado o maior autor de língua inglesa e um dos maiores dramaturgos da humanidade. Walcyr Carrasco tem mais de 30 livros publicados e é autor de novelas, como “Xica da Silva”, “O cravo e a rosa”, “Chocolate com pimenta”, entre outras. Recebeu diversos prêmios e é cronista de revistas semanais e membro da Academia Paulista de Letras. O livro conta a história de um rico mercador de Pádua, na Itália, que decide que sua filha mais jovem, a doce Bianca, só se casará depois da mais velha, a terrível Catarina. Quem se atreveria a querer conquistar o coração de Catarina? Só mesmo o louco Petrúquio, que se revelaria também um grande estrategista.

Editora Moderna. 199 páginas. R$ 51,00.

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