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19/05/2017 - 14h23

Rei Arthur - A Lenda da Espada

Filme de aventura faz salada de frutas com a lenda de Excalibur

A maioria dos países possuem lei de domínio público para suas obras, contos e outras formas de narração. No Brasil, por exemplo, um livro ou música entra em domínio público setenta anos após a morte de seu autor ou quando este é desconhecido.

Isto significa que qualquer pessoa pode adaptar esta criação sem ter de pagar direitos autorais. As histórias do Rei Arthur e a Távola Redonda se encontram nesta classificação tanto por serem lendas que remontam ao século V, sem autor, quanto pelo óbvio período de tempo que já atravessaram junto a humanidade.


Arthur para todos os gostos

Isto não fez que o conto sobre a formação da Inglaterra fosse tratado de uma maneira respeitosa pelos novos autores que basearam seus derivados no domínio público da Távola Redonda. No último século vimos o primeiro rei dos bretões ser retratado de todas as maneiras possíveis no cinema e em outras mídias.

Na literatura as lendas arthurianas foram trazidas para as massas pela visão feminina do livro Brumas de Avalon; nos quadrinhos vemos um Rei Arthur no futuro com Camelot 3000; no cinema... Bom no cinema podemos escolher a forma como Arthur é representado.

Rapidamente podemos citar vários filmes sobre o personagem: A espada era a lei, desenho da Disney de 1963; Camelot, um musical de 1967; Excalibur, para mim o melhor filme feito sobre o personagem, de 1981; Lancelot - O primeiro Cavaleiro, de 1995, cine pipoca com Richard Gere e Sean Conery, focado no principal cavaleiro da távola; Rei Arthur, de 2004, outra boa obra que defende que o governante teria vindo das invasões romanas...

Estas são apenas algumas das dezenas de visões que os diretores de cinema tiveram para esta importante lenda. Mas seguramente nenhuma delas nos prepara para o que é feito no novo Rei Arthur - A lenda da Espada, recém lançado nos cinemas.

Uma nova Camelot

Normalmente você imagina que a lenda de Arthur é sobre um rapaz que se descobre rei ao tirar a espada Excalibur de uma pedra, vive sob a tutela do mago Merlin, forma a Inglaterra com a ajuda dos cavaleiros da távola redonda combatendo sua meia irmã, a bruxa Morgana, e em dado momento parte em busca do Santo Graal.

Bom, esqueça tudo isto antes de entrar no cinema. A novíssima fita apenas utiliza parte das nomenclaturas e fatos para nos apresentar um novo formato da história.

Salada de frutas, de espadas e de conceitos

Não estou dizendo com isto que o diretor Guy Ritchie (O Agente da Uncle, 2015), encontrou uma solução adequada para o filme, muito pelo contrário. Na ânsia de trazer algo novo ele mistura histórias, confunde personagens, cria conceitos que em nenhum momento estavam nas lendas de Arthur. O filme pode ser considerado uma aventura de ação razoável, mas não leve seus alunos de história ou literatura para assisti-lo.

Incas na Inglaterra

Vamos exemplificar melhor o que eu digo pela fotografia da fita. Na primeira cena do filme vimos paisagens que remontam a Inglaterra antiga, com algumas ruínas tipo Stonehenge. Até ai ok. Ao lado dela uma...pirâmide asteca. Mais adiante vemos um coliseu romano em plena Londres, só para citar dois absurdos.

Kung-fu em Londres

Quanto a etimologia do filme também é interessante prestar atenção. Ter um afro-americano entre os tutores do Rei até é legal. Poderia ser um imigrante que conseguiu se inserir naquele mundo sabe-se lá como. Demonstra interesse pela pluralidade cultural, etc. Mas a Inglaterra do século V da fita tem, além de atores negros, chineses que lutam Kung-fu.

Armaduras trocadas

Quanto ao papel dos personagens clássicos também é feito uma verdadeira geleia geral. Mordred que seria o filho bastardo de Arthur nos contos, no filme vira o invasor do reino do pai do príncipe, quando este ainda era criança. Os cavaleiros da távola redonda todos são misturados em relação ao nome e a atuação na obra atual.

Game-over em Camelot

Além destas inovações o diretor traz outros elementos ao filme. Claramente ele busca inspiração em obras baseadas no período medieval que caem no gosto dos novos cinéfilos para atraí-los a fita.

Desta forma podemos ver armaduras com as ombreiras do jogo de video-game Warcraft e cenas que poderiam ter sido tiradas de outro jogo, Assasin's Creed e suas fugas em telhados. Os games tem tanta influência que a fita possui um chefe de fase em seu final.

A série de TV Game of Thrones também não foi esquecida e várias referencias são utilizadas no filme, principalmente nas partes que se referem a magia.

A nova história Arthuriana

Como eu já disse Arthur tem seu lado bom se o vermos como uma aventura. A história que conta a trajetória de um príncipe que tem de ser abandonado na correnteza de um rio para escapar da morte, tipo Moisés. O jovem,vivido por Charles Hunnam (Circúlo de Fogo,2013), é resgatado por prostitutas e cresce dentro de um bordel, se fortalecendo como líder do crime de Londonium.

O rápido crescimento de Arthur neste mundo é uma das melhores partes do filme, logo no começo. Em dado momento o Rei Vortigen, tio de Arthur interpretado por Jude Law ( Alfie - O Sedutor , 2004), que tomou o poder do rei Uther Pedragon (Eric Bana, Hulk, 2003), pai de Arthur, descobre a espada Excalibur presa numa pedra e obriga todos os homens do reino a tentar retirá-la do monólito. Mesmo reticente, Arthur realiza a prova e ao conseguir vencer o desafio tem de enfrentar a perseguição de seu tio.

Elefantes ao invés de Dragões

Além das cenas rápidas, o filme se destaca pela direção de som e pelos ótimos efeitos especiais. O único problema é que estes são utilizados para criar verdadeiros absurdos como um ataque de elefantes gigantes, completamente desproporcionais, que invadem Camelot logo no início da fita.

Para se ter uma ideia do tamanho do bicho, sua tromba é maior que vários homens juntos e suas costas carregam uma pirâmide cheia de gente dentro. Mas tudo bem, o monstro teria sido criado com magia, o que justifica tudo. Pelo menos é mais criativo que usar dragões como vemos em várias películas sobre esta época.

Mais respeito a obra original

Rei Arthur é um filme com ação intensa, traz efeitos especiais interessantes, segue na sua estrutura narrativa a jornada do herói que vai reconquistar seu reino, etc. No entanto a utilização da nomenclatura Rei Arthur obrigaria que este aparato todo fosse utilizado em algo mais próximo ao que foi contado nos livros antigos.

Sou francamente favorável as leis de domínio público. Elas permitem que em determinado momento obras fechadas sejam compartilhadas com toda a humanidade. Mas entendo que de alguma forma deveria haver salvaguardas para que, se forem utilizados os títulos da obra original, o material derivado mantenha minimamente as linhas do que foi escrito inicialmente.

Criem suas próprias narrativas

Entendo isto até por respeito aos autores e aos inovadores. Hora, se for para modificar quase tudo então escrevam ou produzam um material de sua própria autoria. Além de se valorizarem não criam falsas expectativas nos consumidores que compram gato por lebre.

Quem sabe ao apresentarem um título diferente não estarão criando também uma nova obra que tenha tanta importância para a sociedade quanto a que resolveram imitar. Daqui a 1500 anos talvez fosse esta obra novíssima que estivesse sendo chupada para um conto completamente diferente do que se propunha. Estão perdendo a oportunidade.

 

Trailers
https://youtu.be/VCFkCZZDutA 
https://youtu.be/p4anqfHojjU

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